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Treino Psicológico no Futebol – do Treino à Competição!



No futebol, a reflexão sobre o jogo e o treino deve ser uma constante nas equipas técnicas, no sentido de promovermos a melhoria do rendimento individual e coletivo das suas equipas. No entanto, quantas vezes após uma derrota perguntamos o seguinte: Como é possível, depois de uma semana de trabalho fantástica, em que a equipa preparou tudo ao pormenor, a equipa ter dado aquela resposta negativa na competição? Ou seja, parece que não existe explicação para o sucedido porque a equipa tinha um plano de jogo treinado ao pormenor e na competição parece que tudo foi esquecido.

Do meu ponto de vista, a razão principal está na pouca preocupação dado ao trabalho psicológico no planeamento e operacionalização do treino comparativamente com as dimensões tática, técnica e física, porque o cérebro tal como o músculo tem de ser preparado em treino para a competição. E esta pouca preocupação tem a ver sobretudo com a pouca interação entre a supra-dimensão tática e a dimensão psicológica. De uma forma simples e objetiva vou descrever alguns pontos onde esta problemática é evidente na relação tática/psicologia:

1 – A implementação de uma ideia/modelo de jogo deve começar na explicação desse modelo por parte do treinador, deve construir-se com a prática através de exercícios de treino e deve acabar com a explicação e aplicação desse modelo de jogo através dos jogadores. E a ideia passa por ao longo do tempo, das unidades de treino, da época desportiva, os treinadores expliquem menos e os jogadores expliquem mais a ideia/modelo de jogo da sua equipa. A promoção da autonomia do jogador em treino é uma variável psicológica importantíssima em competição, já que permite encontrar respostas sem a intervenção direta do treinador. O problema é que o treinador gosta de mostrar que sabe tudo dando respostas, gosta de controlar tudo mas quando chega um momento de descontrolo na competição, como um golo ou uma surpresa tática do adversário, não será ele que tem de responder mas sim os jogadores, por isso, o treinador deve preocupar-se em ao longo do tempo procurar tornar-se desnecessário, já que é um ótimo sinal de que os jogadores estão a encaixar o seu modelo de jogo. E esqueçam que não vão perder a liderança do grupo, bem pelo contrário!

2 – O Foco e a Concentração são variáveis psicológicas importantíssimas mas ao mesmo tempo muito complexas de desenvolver no futebol e a maior dificuldade é a absorção de uma forma mais mental do modelo de jogo da equipa. Concentração e foco não é “concentra-te e já está”, são variáveis treináveis e claramente o trabalho psicológico como a visualização mental, auto diálogo e questionamento podem ser excelentes práticas para que a interiorização mental das práticas construídas no treino sejam mais significativas e assim no contexto de jogo e competição, os atletas estejam mais preparados.

3 – O controlo da ansiedade e do stress competitivo faz-se na prática com a correção do erro em treino porque o erro na competição é claramente um dos maiores fatores de aumento da ansiedade e do stress. O atleta tem que errar no processo de treino e testar soluções que evitem esse mesmo erro, levando a que os atletas tenham uma adaptabilidade maior à possibilidade de errar na competição, provocando diminuição da ansiedade e stress, e consequentemente um aumento do rendimento. 

4 – Equipas competitivas treinam maioritariamente de forma competitiva, seja num contexto com golos seja num contexto de valorização de outros objetivos de treino. Equipas que não lidam bem com o resultado negativo na competição devem preparar-se com contextos de treino que promovam a melhoria desse aspeto. São apenas exemplos para que haja perceção que o ambiente de competição pode ser estimulado dentro da própria operacionalização do treino e que a dimensão psicológica deve ter objetivos concretos no treino. Com isso a adaptação à realidade competitiva será com certeza muito maior. 


Concluindo, existem treinadores muito competentes ao nível da periodização e construção tatico-técnica do treino, ao nível do seu controlo fisiológico, ou seja a interagirem muito bem a dimensão tática, técnica e física, mas depois muitas vezes apontam o dedo indicador na direção da cabeça quando as coisas não correm tão bem nos jogos. Porque fazem esse gesto? Obviamente porque tudo a mente, o cérebro, a dimensão psicológica é um aspeto fulcral na obtenção do sucesso e na preparação para o rendimento tendo obrigatoriamente que ser preocupação no planeamento e operacionalização do processo de treino e não apenas nas tradicionais palestras que antecedem a competição. 




Cláudio Costa

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