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Valor profissional Vs Valor sócio-pedagógico do treinador? Goleada dos visitantes que obrigaram à rescisão do contrato do treinador!

O grande objetivo do PASSE DE RUTURA como blog é tentar ajudar os treinadores, e este primeiro texto de regresso, não será para ajudar no trabalho em treino nem no trabalho em jogo, mas sim para ajudar a defender uma das "profissões" portuguesas de maior reconhecimento internacional, e que vocês os leitores vão perceber com este texto, qual é o reconhecimento nacional dado à "profissão" treinador de futebol, e no final deste texto gostaria de ler as vossas opiniões que pode ser apenas numa palavra! Para bem da nossa classe...

Este primeiro texto surgiu da reflexão conjunta entre dois treinadores, eu e o Diogo Costa, que após uma aula de mestrado em Alto Rendimento na FADEUP, vínhamos na viagem de regresso à nossa cidade, Coimbra, discutindo os temas abordados nas aulas e tentando identificar um tema para realizar um trabalho para a disciplina de gestão e administração desportiva. Ao ver os euros a "voar" em portagens, gasóleo, propinas, dei por mim a pensar e a perguntar ao Diogo: Quanto ganhamos na "profissão" treinador? Qual é o nosso contrato de trabalho? Quantas horas trabalhamos por semana em planeamento, treinos, jogos e deslocações? Depois como anteriormente tínhamos frequentado a disciplina de sociologia do desporto, onde os valores maiores e primordiais do desporto são abordados, como a igualdade de condições de competir, a ética, a construção de uma personalidade quase perfeita com os valores do desporto, questionei-me: Sou um treinador ético? O que pensam os meus atletas de mim? E os pais dos atletas, o que pensam de mim? Tive ou tenho uma influência positiva nos meus atletas/adolescentes/homens? Os treinadores e o desporto são importantes no desenvolvimento humano e social dos atletas? E o desporto promove a igualdade profissional entre treinadores, ou pelo menos condições justas que me permitam competir com os meus colegas de profissão e adversários?

Depois desta reflexão conjunta entre dois treinadores que não se limitam a olhar para o seu umbigo, o tema surgiu: Relação entre valor profissional e valor humano-social do treinador. A relação é direta ou inversamente proporcional?


Posto isto, através da plataforma Google Docs, criámos três questionários: Primeiro para os treinadores (57) onde avaliamos salário mensal, tipo de contrato, nº horas trabalho semanal (treinos, jogos, planeamento, deslocações, reuniões) e relação salário / horas de trabalho; o segundo e terceiro questionário foram para os encarregados de educação (49) e atletas (75) respetivamente, onde avaliamos a influência da prática desportiva e do treinador no desenvolvimento social e humano dos atletas bem como na construção da própria personalidade.

Por tópicos, apresento-vos os principais resultados:

Valor profissional

- 77% dos treinadores inquiridos não têm qualquer contrato com o clube ou entidade empregadora;

- 17,5% tem contrato como trabalhador independente e apenas 3,5% tem contrato full-time; 

- Quase metade dos treinadores inquiridos (49%) recebe um vencimento entre 76-150€ e 80,8% dos treinadores afirmam auferir menos de 300€;

- 3,5% não recebem qualquer vencimento; 

- Relativamente ao número de horas de trabalho semanal, os resultados tendem para um equilíbrio, no entanto a classe entre as [11-20h] apresenta um predomínio comparativamente com as outras, com cerca de 39% das respostas;

- Observando os valores que podem ser calculados no que respeita ao vencimento por hora de trabalho, constatamos que estes valores situam-se entre 0,63€/hora e 11,36€/hora, e na classe de vencimentos mais representativa da amostra (76-150€), existem 20 treinadores em 57 que recebem entre 0,63€/hora e 3,41€/hora.

Valor humano-social pela prática desportiva federada e pelo treinador na perspetiva dos atletas

- 94% dos atletas consideram a prática desportiva muito importante e extremamente importante no seu desenvolvimento humano e social; 

- 88% dos jogadores afirmaram que a prática desportiva foi muito importante e extremamente importante na criação de amizades; 

- 90% dos futebolistas relataram que o treinador foi muito importante e extremamente importante na implementação de regras, disciplina e hábitos importantes; 

- Para 85% dos desportistas o treinador foi muito importante e extremamente importante no desenvolvimento da sua personalidade;

- 78% dos futebolistas afirmam que o treinador, no global, teve uma influência muito positiva e extremamente positiva no seu desenvolvimento social e humano.

Valor humano-social pela prática desportiva federada e pelo treinador na perspetiva dos encarregados de educação

- 98% dos pais consideram muito importante e extremamente importante a influência da prática desportiva no desenvolvimento social e humano do seu educando;

- 96% dos encarregados de educação afirmam que a prática desportiva foi muito importante e extremamente importante na criação de amizades; 

- 94% relatam que o treinador foi muito influente e extremamente influente na implementação de regras, disciplina e criação de hábitos do seu educando; 

- Para 82% dos pais o treinador foi muito importante e extremamente importante na construção da personalidade do seu educando;

- 75% dos encarregados de educação consideraram que o treinador teve uma influência muito positiva e extremamente positiva no desenvolvimento social e humano do seu educando;

- 22% consideraram importante a influência do treinador, no entanto, 2% dos pais afirmaram que a influência do treinador foi pouco positiva.

http://observador.pt/2016/12/30/cristiano-ronaldo-rejeitou-proposta-de-100-milhoes-por-ano-da-china/

Enquanto escrevia os resultados dei por mim num sorriso sarcástico, a pensar nos milhões que relata a imagem acima e a pensar que 71,9% dos treinadores inquiridos são licenciados em ciências do desporto, que se especializaram em futebol na sua maioria, e que investiram na sua formação para atingir o seu grande objetivo profissional que não é ser professor de educação física, não é ser instrutor de fitness, mas sim trabalhar nos quadros técnicos de um clube de futebol. Igualdade? Profissão? Estou a escrever um texto de comédia...ou terror!!!

Obviamente que a dimensão da amostra, tendo em conta o universo de treinadores de futebol, de atletas e pais em Portugal não é representativa, mas estes resultados indicam claramente uma tendência para uma relação muito inversa entre valor profissional e aquilo que o treinador pode promover na educação e no comportamento socio-pedagógico das crianças e dos adolescentes, que se tornará importante na idade adulta, e que claramente é valorizada pelos próprios atletas e pelos seus encarregados de educação, mas que sofre de uma desvalorização, de uma falta de respeito de quem gere o desporto nacional: Governo, Federações, Associações e Clubes.

A questão é, porque é que isto acontece? Porque continuamos nestas condições?  Pessoalmente, vou transmitir-vos a minha opinião.

1º Péssima gestão desportiva do desporto e do futebol em Portugal, porque se existe área com capacidade económico-financeira neste país, essa área é o desporto. Comprovo aquilo que estou a dizer com exemplos. Em Portugal, a desigualdade económico-desportiva está bem presente no futebol. Barros (2006) concluiu que uma das principais razões para a crise desportiva é a sobrevalorização aos três clubes de maior dimensão, Benfica, Porto e Sporting. Isso é claramente comprovado se observarmos por exemplo os valores para a venda dos direitos televisivos que ocorreu recentemente no futebol português, em que o somatório dos três clubes originou um valor de 1372,5 milhões de euros num contrato de 10 a 15 anos com a MEO e NOS, aumentando ainda mais o desequilíbrio para os clubes de média e pequena dimensão (fonte Jornal Expresso – Dezembro 2015). Portanto, o desporto e neste caso o futebol tem grandes recursos financeiros, no entanto o dinheiro está mal distribuído. Se observassem grandes exemplos, como é o caso da venda dos direitos televisivos na Liga Inglesa, onde 50% do valor total por época é repartido pelos 20 clubes da liga, 25% em função dos resultados desportivos e os restantes 25% em função do número de jogos transmitidos, levando neste momento a um grande crescimento económico e aumento da competitividade de todas as equipas inglesas com dois princípios fundamentais do desporto, igualdade de condições e justiça desportiva. 

Esta desigualdade está presente claramente no desporto português e nos treinadores, que é o tema fundamental deste texto, e o maior exemplo disto é o caso de Jorge Jesus que tem um contrato de três anos a receber 6 milhões de euros/época (fonte Diário de Notícias – Junho de 2015). Observem novamente os resultados do nosso estudo e percebam as diferenças.....mais vos digo, se o Sporting retirasse um milhão de euros por época ao Jorge Jesus e investisse esse milhão em todos os treinadores de futebol da sua formação, imaginado que fossem 50 profissionais, estes ganhariam mais 1666 euros por mês!!! São diferenças lastimáveis que com uma gestão desportiva ética, a motivação do treinador de formação não seria chegar rapidamente ao alto rendimento para ganhar dinheiro mas sim realizar um trabalho profissionalmente correcto.

2º A maioria dos treinadores de futebol em Portugal olham muito para o seu umbigo e não fazem aquilo que eu e o Diogo nos preocupamos em fazer com este trabalho, esquecendo que acima de tudo o talento chega ao futebol sénior com uma excelência desportiva que depende das condições que terá na sua formação, e que essa excelência é potencializada ao máximo se os treinadores forem competentes mas também se estes andarem profissionalmente e financeiramente estáveis. Por muita paixão que exista, por muito que continuem a aparecer talentos, a tendência é que essa paixão e o talento diminua se mantivermos este comportamento de "assobiar para o lado" percebendo que as condições de trabalho são amadoras, são claramente não profissionais, e que os treinadores não têm ordem dos treinadores para nos defender. Queremos equipas unidas, com espírito mas isso não acontece entre a classe de treinadores.

3º Dirigentes dos clubes tem que obrigatoriamente aumentar a valorização profissional e financeira dos técnicos competentes criando grupos de trabalho reduzidos com acumulação de funções técnicas no clube, promovendo condições de trabalho sérias e altamente profissionais aos treinadores. O princípio devia ser: qualidade profissional em detrimento de quantidade amadora! Para além disso os clubes ainda não perceberam que o investimento na formação desportiva é o caminho certo para o próprio crescimento desportivo e económico.

Concluindo, numa altura em que o treinador de futebol tem um reconhecimento internacional elevado, o reconhecimento nacional é medíocre, principalmente na sua valorização profissional e económica. No entanto, gostaria de terminar afirmando que esta análise é muito redutora da má gestão do desporto nacional, porque não comparamos valor profissional e económico entre modalidades desportivas, entre desporto de recreação, formação/especialização e alto rendimento dentro da mesma modalidade. As entidades governamentais, federações, associações e clubes ainda não perceberam a importância do investimento desportivo, nos quadros técnicos, na igualdade de investimento nas diferentes fases de desenvolvimento do desporto (recreação, formação, rendimento) para a evolução do desporto nacional, e ainda não perceberam o impacto sócio-pedagógico que a prática desportiva pode ter nos futuros adultos portugueses. Se perguntarem aos pais e aos atletas talvez percebam!

Esta é a minha paixão, esta é a minha profissão, seja na recreação, na formação ou no alto rendimento mas...

Se estás a pensar em ser treinador pensa duas vezes...acreditando que esta realidade vai mudar com as tuas convicções!!!

Um abraço companheiros neste regresso do blog.

Cláudio Costa
      (Colaboração Diogo Costa)













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