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O Treinador de Formação não é SÓ um Treinador

Um treinador de jovens tem de ser completamente diferente daqueles que aparecem na televisão. Se os educadores de infância não podem ser professores do 1º ciclo, professores do 1º ciclo que não podem ser educadores de infância nem do 2º ciclo e por aí em diante, porque é que os treinadores sub-7 e sub-8 podem ser treinadores dos sub-19? E pior… Porque é que os treinadores dos sub-11 que querem ser treinadores dos Seniores vão para treinadores de sub-11?


O treinador de crianças deve especializar-se naquilo que faz, ser recompensado por isso e fazê-lo da melhor forma possível.

O problema é que o desporto e a formação das nossas crianças através dele é completamente descorada. Apesar do desporto estar na moda, o papel dele na formação das pessoas está completamente posto de parte. No entanto, isso não deve ser desculpa para nós, treinadores, deixarmos de ser bons. Bons treinadores e bons FORMADORES.

Um treinador de formação tem de transmitir bons valores e boas crenças. O querer ganhar a todo o custo e transmitir isso para os atletas parece, aparentemente, inofensivo. É só um desporto, num clube com poucas ambições, ninguém vai reparar. O grande problema é que estes jovens estão numa idade bastante sensível, estão a formar o seu caráter e a sua hierarquia de valores. No imediato, estas ações dos treinadores não parecem mudar nada mas quem serão esses meninos no futuro? Será que vão ser jogadores de futebol? Será que vão ser políticos? Será que vão ser donos de uma grande empresa? Será que se se tornarem pessoas demasiado competitivas, que querem ganhar a qualquer custo e que não se importam com o que levam à frente, não serão maus profissionais? Não serão más pessoas? E o Treinador/Formador não tem cota parte nisso?

O treinador de formação tem um papel de grande influência no molde da personalidade destes pequenos. Se é certo que grande parte da personalidade é explicada pela genética, também se sabe que uma boa parte se deve ao ambiente em que as crianças estão inseridas e aos adultos-modelo. E o treinador é um dos adultos-modelo com mais peso. É o que possibilita uma das atividades que a criança mais gosta e que o faz/ou devia fazer evoluir e crescer nessa atividade.

O treinador de formação, ao contrário do treinador de equipas de competição, deve pôr a evolução individual do atleta à frente dos resultados competitivos do clube. Ou seja, dar hipóteses para os que estão menos aptos poderem evoluir e promover os mais aptos a escalões superiores onde possam ter mais competitividade e consequentemente evoluir também; mesmo que isso prejudique os resultados da equipa.

O treinador de formação deve promover a integração. Numa altura em que se fala muito de “bulling”, fenómeno que na minha opinião sempre existiu, é ainda mais necessário que os treinadores promovam uma boa ligação entre todos os seus jogadores. Fazer entender que numa equipa todos temos o mesmo objetivo e que isso nos une, independentemente das nossas diferenças individuais.

Durante o crescimento, especialmente nos escalões onde se costuma dar o salto de crescimento pubertário, existem muitas diferenças maturacionais, jovens muito avançados e outros muito atrasados. O treinador de formação tem que conseguir ver para além dessas diferenças, dar tempo a quem precisa de tempo. Perceber que as limitações que alguns jogadores têm não se devem a falta de qualidade mas sim ao timing de crescimento. E dar estratégias e qualidades a esses meninos para contornar as diferenças físicas.

O treinador tem que ensinar o jogo. Existem princípios e comportamentos que o treinador deve ensinar aos seus jogadores. Eles devem saber jogar e devem entender, interpretar cada momento e reagir em consonância. Para isso o treinador de formação tem de conhecer muito bem o jogo. Como pode um professor de inglês ensinar a língua se não sabe falar corretamente? O treinador deve conhecer o jogo, pensar o jogo, estudar o jogo e tentar estar o mais informado possível para poder ensinar o melhor possível.

O treinador de formação deve ter a noção que o futebol é um jogo. Que os atletas são crianças, que jogam para se divertir. O treinador tem obrigação de não tirar a diversão aos seus jogadores, os jogadores devem adorar o futebol e acima de tudo devem adorar fazer desporto.

O treinador de formação deve preocupar-se com o que os seus jogadores fazem fora do campo, é uma grande referência como já foi dito e pode intervir favoravelmente na consciencialização dos seus atletas. Tanto a nível pessoal como académico, nunca se esquecendo que essas crianças poderão não vir a ser jogadores de futebol profissional e que têm, obrigatoriamente, de ter outra alternativa.

O treinador de formação deve ensinar aos seus atletas bons hábitos alimentares; o que devem comer mais e o que devem evitar; que alimentação devem ter antes e depois do exercício, sublinhar a importância da hidratação. Bem como, alertar para comportamentos menos próprios de atletas, que os podem prejudicar no imediato e no futuro, como hábitos alcoólicos, tabágicos e drogas.

Acima de tudo um treinador de formação tem de ter a consciência que tem o poder de mudar o mundo, pois está a lidar com os homens do futuro. Possíveis políticos, líderes de grandes empresas, pessoas com poder para fazer a diferença. Quando bem ensinados poderão fazer a diferença para o bem, quando mal ensinados…

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