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Análise das variáveis de sucesso da finalização no Futebol

A análise de jogo é atualmente uma das áreas com maior evolução e um dos maiores mercados para seguir uma carreira profissional no futebol. Se inicialmente esta área centrava-se na análise quantitativa das distâncias percorridas dos atletas ou na estatística do nº remates, passes errados, foras de jogo, etc quer do ponto de vista coletivo quer individual, presentemente esta área atua em várias vertentes do jogo através de uma análise mais interligada e qualitativa, como por exemplo: análise coletiva e individual da equipa adversária; análise coletiva e individual da própria equipa nos diferentes momentos do jogo; análise mais académica e científica das tendências evolutivas do jogo através das grandes competições de clubes e seleções.


É precisamente sobre as tendências do jogo que irei falar neste texto, porque considero que é importante encontrar indicadores de qualidade de jogo de alto nível que permitam sistematizar os conteúdos, de forma a propormos metodologias adequadas aos processos de ensino do Futebol de alto rendimento e também de formação. Basicamente o objetivo dos estudos científicos sobre análise de jogo é obter fatores chave da performance que levam ao sucesso desportivo.
Retirado de www.prozonesports.com

Neste sentido irei fazer um resumo do meu trabalho científico de mestrado nesta área  que se centrou na análise das ações ofensivas com finalização resultantes de jogo dinâmico no Euro 2008 que se realizou na Áustria e na Suiça. Foram analisadas diversas variáveis nos diferentes momentos do jogo, no entanto analisarei apenas os dados mais pertinentes do estudo.

Começando com o tipo de recuperação da posse de bola, uma das grandes conclusões que cheguei neste estudo é que o nº de ações com finalização precedentes de recuperações dinâmicas (não existe interrupção) foi muito superior às recuperações com interrupção (75.4% contra 24.6%). Para além disso, foi o tipo de recuperação mais pró-ativa como a antecipação/interceção que mais contribuiu para a superioridade das recuperações dinâmicas que levaram a ações de finalização. Quanto à zona de recuperação, a grande conclusão é uma clara tendência para as recuperações no corredor central levarem a mais ações de finalização (43.5%).

Analisando o processo ofensivo, alguns resultados interessantes foram encontrados:

- A utilização de dois (47.8%) ou três corredores (37.7%) desencadeia muito mais ações de finalização do que de apenas um corredor (14.5%) e a existência de variação de corredor (85.2%) é um fator que potencia a finalização das ações, principalmente as ações entre uma e duas variações de corredor (1 variação – 27.6%; 2 variações – 22.6%);

- A utilização de um número médio entre três e seis jogadores (68%) parece ser um indicador que potencia as ações ofensivas com finalização comparativamente com nº muito reduzido de jogadores ou muito elevado; 

- São as ações de cruzamento, passe para o lado e 1x1 que mais contribuem para ações de finalização quando analisámos a última ação antes da finalização.

- Quanto ao tipo de ataque, as finalizações por ataque rápido (59.3%) são as mais frequentes comparativamente com o ataque posicional (30.3%) e contra-ataque (10.4%).

Revendo os resultados, a grande questão que se coloca após este tipo de estudos será qual a importância destes dados para os treinadores? A resposta será conhecer tendências do jogo, neste caso que tipo de comportamentos potencia mais as ações de finalização resultantes de jogo dinâmico, para depois criar um modelo de jogo, de treino ou de formação em função da minha ideia, das características dos atletas mas também muito em função do que as ciências do desporto através dos seus estudos nos dizem acerca do jogo. Neste caso para as ações ofensivas com finalização, por este estudo, percebe-se uma tendência para situações de ataque rápido, com variação e utilização de vários corredores, com intervenção entre 3-6 jogadores, com ações como o cruzamento e o 1x1 a evidenciarem-se como última ação antes da finalização, com zonas de recuperação predominantemente no corredor central, com recuperação da posse de bola sem interrupção do jogo e preferencialmente por antecipação/interceção.

Concluindo, muitas vezes criamos modelos de jogo baseados na nossa ideia de jogo (muitas vezes copiadas de equipas com qualidade coletiva e individual muito diferente da nossa) e baseados nas características dos jogadores à disposição, esquecendo por vezes que a ciência todos os dias nos pode dar alguns dados que podem influenciar a construção e a operacionalização do nosso modelo de jogo, de treino ou de formação. Para além disso, equipas de sucesso e insucesso nesta competição revelaram perfis de finalização muito idênticos, o que nos poderá dizer que independentemente de um estilo de jogo de características diferentes (mais defensivo ou mais ofensivo), as ações de finalização tem características muito idênticas entre equipas de sucesso e insucesso. Obviamente que este estudo apresenta algumas limitações, já que não sabemos o que acontece quando não há finalização e que poderá ser idêntico em algumas variáveis ao que acontece quando há finalização, no entanto penso que existem dados muito pertinentes que os leitores podem aproveitar no vosso planeamento.


Cláudio Costa

3 comentários:

  1. Grande estudo Cláudio! Tu não achas que a superioridade do jogo em transição possa ser resultado da falta de um modelo de jogo consistente nas seleções? Solidificar um modelo de jogo em tão pouco tempo me parece tão difícil que a transição parece ser um convite, como também se observou na copa do mundo no Brasil. As seleções com modelos de jogo mais coeso parecem ser mais eficientes e próximas do sucesso.

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    1. Araton obrigado pelo comentário e desde já as minhas desculpas pelo atraso na resposta. Concordo com tudo o que disseste, o modelo de longo prazo desde as seleções jovens à seleção principal é fundamental e a prova disso foram as reformulações feitas por Alemanha e Espanha e que tanto sucesso lhes deram. O que era importante, e relacionando com as conclusões do texto, seria uma análise individual a essas seleções que tem modelos sustentados e perceber se as ações com finalização dessas seleções vão ao encontro dos resultados do estudo. Aí perceberíamos melhor se os resultados são mesmo uma tendência evolutiva do jogo ou se o modelo de jogo de cada seleção faz variar o sentido dos resultados.
      Quanto ao que falaste do ataque rápido ser uma tendência atual, tenho poucas dúvidas que existem mais ações de finalização a partir desse tipo de ataque do que do organizado ou do contra-ataque, mesmo em equipas que privilegiam o ataque organizado! Um dos estudos que tencionava fazer era a análise dos golos do Barcelona de Guardiola ou do Bayern do mesmo, somente analisando o tipo de ataque que originavam golos porque penso que os resultados seriam interessantes e algo contraditórios com o estilo de jogo dessas equipas! Um abraço e desejos que continues a acompanhar o blog de forma participativa. Passe de Rutura já chega ao Brasil!!!

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  2. A tendencia ao ataque rápido tem sido verificada em outras ligas também, me parece uma tendencia evolutiva do jogo, que se tornou cada vez mais rápido.

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