Novidades

O Modelo Inglês e a Imaginação Portuguesa


Em Junho deste ano tive a possibilidade de ir a Inglaterra a uma série de palestras, onde pude conhecer o recente modelo de formação da Federação Inglesa de Futebol e trocar ideias com treinadores ingleses. Neste texto vou tentar passar alguma dessa experiência.

EPPP (Elite Player Performance Plan) 

www.mirror.co.uk
 A Federação Inglesa de Futebol em parceria com a Liga Inglesa pôs em prática um plano de desenvolvimento de jogadores a partir de 2011, de seu nome EPPP. Este plano tem uma série de linhas orientadoras baseadas no four corner model, que já descrevi num post anterior. As academias são distribuídas por categorias, uma academia de uma categoria superior, tem direito a mais ajuda monetária da federação. Esta categoria é atribuída, não só pelos resultados desportivos, mas pela quantidade de jogadores que assinam contrato profissional vindos da academia, pelo número de treinadores profissionais que a academia tem, as infraestruturas que têm, a qualidade da formação e se as orientações da Federação são utilizadas (são feitas auditorias regularmente, por empresas privadas, às academias de forma a avaliar a qualidade da formação, onde constam inclusivamente questionários aos treinadores para saber se a filosofia do clube é transversal a todos os escalões).

Quanto melhores condições tiverem, mais dinheiro lhes é atribuído, o que leva a que os clubes apostem na academia, não só pela possibilidade de virem a formar melhores jogadores para a equipa principal, mas também para terem mais benefícios da Federação.

Com este novo modelo todos os treinadores vinculados a clubes têm direito aos cursos de treinador de formação sem custos.

De dois em dois anos é feita uma reavaliação das academias para saber a que categorias pertencem.

A Académica-OAF que está entre as 10 melhores escolas do país seria de 3ª ou 4ª categoria em Inglaterra, sendo que só existem 4 categorias e a melhor é a primeira. Em Portugal de primeira categoria apenas existiriam a academia do Benfica, Porto e Sporting. Em Inglaterra existem mais de 21.

Preston de 3ª categoria tem 6 treinadores full-time na formação, 7 campos relvados e tem a equipa principal na Division 1 (equivalente ao campeonato nacional de séniores em Portugal).

O modelo de competição utilizado é diferente, têm competição formal de 15 em 15 dias e nos outros fins-de-semana fazem convívios com vários jogos e várias equipas. O que lhes permite uma maior fase de competição e caso o campeonato seja mais fraco garantir competitividade de igual modo. A progressão para o futebol de 11 é mais faseada, nos infantis jogam 9x9 o que possibilita uma transição mais fácil.

Em cada treino, existem objetivos nos quatro cantos, tanto a nível de grupo, como individuais.

De 3 em 3 meses é feita uma reunião com os jogadores e com os pais para se falar sobre a evolução do atleta, responsabilizá-lo e deixá-lo sempre a par das dificuldades e aspetos a melhorar.

Trabalham muito por zonas do campo, e os jogadores estão familiarizados com essas zonas. Utilizam um campograma de 12 zonas, tal como se faz cá com o voleibol em Portugal, por exemplo.

Apesar disso, os treinadores queixam-se que os jogadores deles são menos criativos, em geral, que os jogadores latinos, no entanto têm uma relação com a bola bastante boa, muito coordenados, sabem fazer vários tipos de drible, receção, passe e remate. Fazem todas as semanas trabalho analítico neste aspeto. A meu ver, este trabalho é importantíssimo mas precisa de um complemento de jogo posterior, que obrigue a utilizar os skills aprendidos em situações jogadas, em que a quantidade de soluções seja a mais variada possível.

Os exercícios são muitas vezes fechados (com poucas soluções) e utilizam os jogadores quase sempre nas suas posições, o que faz com que os seus movimentos se tornem mais padronizados e menos naturais e criativos.

Desde os Iniciados de primeiro ano trabalham muito por posição. Seja com esquemas táticos ou exercícios mais abertos. Apesar de treinarem durante o ano em duas posições.

Tal como a reformulação na Alemanha, que precisou de 10 anos para se ver resultados concretos, esta será uma aposta que trará resultados a médio-longo prazo. Não sendo perfeito, é um plano bastante ambicioso, que poderia servir de base para Portugal.

Apesar de não se poder comparar em termos monetários a liga e a federação inglesas em comparação às portuguesas, a federação portuguesa é das que mais dinheiro faz a nível de patrocínios com as seleções. O problema é que esse dinheiro não é canalizado para a formação como se faz em Inglaterra.

Com um plano de desenvolvimento deste género, as equipas portuguesas poderiam beneficiar de treinadores mais bem preparados, porque todos os treinadores têm acesso à formação gratuitamente. Os clubes de formação teriam acesso a um planeamento de conteúdos mais estruturado e teriam que ter os treinos bastante mais organizados e estruturados para estar de acordo com as especificações da federação. Seria benéfico para os clubes pequenos porque iriam evoluir com este tipo de organização e fiscalização; e para os grandes porque teriam mais competitividade nos seus campeonatos e mais apoio de acordo com as condições que dão aos seus atletas da formação.

Em jeito de conclusão, as culturas portuguesa e inglesa complementam-se bastante bem a nível futebolístico. A portuguesa poderia beneficiar muito com a organização, com o planeamento e a seriedade com que se fazem as coisas em Inglaterra, bem como com a forma como se olha para a formação neste país. O futebol inglês poderia beneficiar bastante com a imaginação dos treinadores portugueses, com a desordem, liberdade e criatividade que os treinadores permitem aos seus jogadores, que lhes poderia oferecer o tipo de jogador que eles tanto ambicionam.

Hugo Pinto

Sem comentários