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Porque é que a minha equipa não joga como o Barça?

Retirado de www.marca.com
Muitos treinadores fazem esta pergunta a si próprios, mesmo em escalões de formação. Só porque pedem aos seus jogadores para jogar como o Barça.. “Vamos ter a bola, poucos toques e quando der vamos para a baliza”. Mesmo que os jogadores vejam muitos dos jogos do Barcelona e que, por milagre, consigam entender como jogam, por si só não é suficiente para o fazer. É necessário criar todo um planeamento de jogo e passá-lo aos jogadores, aos poucos, e através da prática, para que estes consigam adquirir o tão desejado “jogar”.

O trabalho tático é fundamental, mas é um trabalho realizado durante a semana, o treinador que na palestra diz que temos de jogar desta ou daquela forma já não pode existir. Tem de existir sim o treinador que prepara taticamente a equipa, que encontra exercícios que potenciam aquilo que se pretende atingir, esse treinador faz a diferença. (Mourinho citado por Amieiro et al, 2006).

Este planeamento do jogo, desta maneira de jogar, chama-se o “Modelo de Jogo”.
Frade (2004) explica que o modelo de jogo constitui o “guia” do processo, um referencial fundamental porque congrega todos os princípios e sub-princípios de um sistema complexo que é o jogo que pretendemos. E Carvalhal (2003) completa “Modelo de jogo é sempre o futuro, é aquilo que eu pretendo alcançar é aquilo que eu estou constantemente a visionar, é aquilo que eu pretendo. É essa ideia de jogo que me dá as coordenadas para eu trabalhar, para eu guiar e chegar ao nível máximo de jogo que posso chegar”.

Segundo estes autores ter um modelo de jogo é importante. Mas porquê?

Para responder a esta questão parece-me importante falar no conceito de sinergia. Sinergia significa cooperação, quando as partes de um todo se juntam para um mesmo fim; dessa junção podemos ter um resultado igual à soma das partes, menor ou maior. 

E onde é que isso entra no futebol e mais especificamente na ideia de jogo? 

No futebol o todo é a equipa e as partes são os jogadores. A performance da equipa pode ser melhor, pior ou igual à soma da qualidade dos seus jogadores. É aqui que entra o Modelo de Jogo, se os jogadores pensarem o jogo da mesma forma, poderão cooperar e utilizar as suas capacidades para um objetivo comum.

Por exemplo, vêem-se muitas equipas com ideias de jogo pouco definidas, em que uns jogadores procuram receber preferencialmente a bola no pé mas os colegas passam a bola para o espaço, onde uns jogadores tentam ganhar a bola numa zona mais avançada do terreno e outros numa mais recuada. Obviamente que isto influencia negativamente a performance da equipa. Por outro lado, se as ideias de jogo estiverem bem definidas e operacionalizadas, isso poderá potenciar a performance da equipa.

“No fundo podemos concluir que o mais importante numa equipa é ter um determinado modelo, determinados princípios, conhece-los bem, interpretá-los bem, independentemente de ser utilizado este ou aquele jogador. No fundo é aquilo a que se chama organização de jogo”. (Mourinho cit. Por amieiro et al, 2006)

Para definir o nosso modelo/ideia de jogo normalmente dividimos essas ideias por princípios, esses princípios não são nada mais que comportamentos que esperamos que a equipa ou certos jogadores tenham em determinadas situações. Quanto mais situações o modelo conseguir abranger, menos imprevisibilidade terá o jogo. "Sob o ponto de vista do pensamento do proceso queremos unicidade, queremos que os jogadores funcionem dentro do mesmo guia, do mesmo plano de pensamento. O treino cria hábito e depois, no jogo, em vez de o ato ser pensado, este surge de forma inconsciente e natural. (...) tentamos pensar o máximo nos treinos de forma a tentar reduzir a imprevisibilidade, para que no jogo não se tenha que encontrar novas respostas ou, pelo menos, que o tenhamos que fazer o mínimo de vezes possível." Rui Faria

Os princípios que compõem o modelo vêm de cada treinador, da ideia que tem para o jogo da sua equipa, não existem modelos bons e maus, talvez existam maus. Mas mais importante que o conteúdo é conseguir passá-lo para a equipa e que os jogadores tornem esse o seu modelo e a sua forma de ver o jogo. A partir daí tudo se torna mais fácil.

Para isso é necessário programar a época com base no modelo que definimos, sabendo que não é possível transmitir tudo de uma vez. Devemos estabelecer prioridades e saber que a equipa só jogará como queremos a meio da época, mais tarde, ou nunca! Reformular o planeamento ao longo da época de acordo com as necessidades da equipa e acreditar. Só acreditando no nosso modelo de jogo, conhecê-lo de trás para a frente e conseguindo transmitir isso aos nossos jogadores é que conseguimos que eles o aceitem. Depois é desfrutar do resultado.

A citação de Rui Faria é retirada do livro "Liderança - As lições de Mourinho", muito interessante por sinal. As outras são retiradas de um estudo caso da Universidade do Porto chamado "Organização defensiva: Congruência entre princípios, sub-princípios e sub-sub-princípios de jogo definidos pelo treinador e a sua operacionalização", de Pedro Ricardo Batista que recomendo a quem quiser pesquisar mais sobre o assunto.


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