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Erros de operacionalização segundo a Periodização Tática


Atualmente planear, periodizar e operacionalizar futebol é muito diferente de alguns anos atrás onde a dimensão física e técnica do jogo assumia maior dominância. Parece-me unânime que o desenvolvimento da condição física através das corridas sem bola, a técnica através de circuitos ou a tática e a psicologia através das “peladinhas” e das palestras está ultrapassado e que o planeamento e operacionalização em futebol, presentemente, assentam na melhoria de todas estas dominantes do jogo de forma integrada e em interação, onde a dimensão tática é considerada a supra-dimensão. E neste sentido, todos falamos em Periodização Tática (PT), que foi uma teoria de planeamento elaborada pelo Professor Vítor Frade e que muitos treinadores têm tentado seguir e que surgiu da necessidade de encontrar uma solução para a enorme complexidade, variabilidade e incerteza que esta modalidade apresenta.

O que nos diz a PT é que com esta variabilidade de exigências físicas, técnicas e táticas da modalidade, é importante construir um planeamento, uma operacionalização em função de uma ideia de jogo, de um conjunto de princípios nos diferentes momentos de jogo que sejam compreendidos e interpretados da mesma forma por todos os jogadores, em que o modelo de treino esteja em sintonia com o modelo de jogo, havendo assim uma adaptação fisiológica, técnica e psicológica específica em concordância com o modelo que queremos “jogar”.

No entanto, para haver esta adaptação ótima de todas as dimensões do jogo em função do nosso “jogar” devemos orientar-nos pelos princípios metodológicos que sustentam a PT. De uma forma simples, existe um supra-princípio na PT que é o Princípio da Especificidade que afirma que toda a operacionalização (treinar) é realizada em função do nosso modelo de jogo, desde os grandes princípios coletivos da equipa aos pequenos princípios individuais do jogador; e existem outros princípios que em interação são fundamentais para planear segundo a PT, dos quais destaco:

- O Princípio da Hierarquização dos Princípios de Jogo que se carateriza por definir princípios de jogo prioritários de acordo com o planeamento a desenvolver num determinado período da época nunca separando dos restantes princípios mas dando-lhe maior ênfase.

- O Princípio da Progressão Complexa que diz que a unidade de treino, o microciclo, o planeamento, para além da hierarquização, deve apresentar sempre um aumento da complexidade, estímulos (exercícios) de maior dificuldade de forma a não haver monotonia e consequentemente facilitismo porque se já sabemos, se já repetimos e se já está mais que adquirido temos que complexificar.

- O Princípio da Alternância Horizontal em Especificidade serve para otimizar o binómio desempenho-recuperação de forma aos atletas competirem nas melhores condições possíveis, isto é os atletas/equipa treinam o seu “jogar” com níveis de complexidade e exigências ao nível da contração muscular diferenciadas, de forma a exponenciar ao máximo a nossa ideia de jogo na competição.

- O Princípio das Propensões consiste em fazer aparecer um grande número de vezes o que queremos que os nossos jogadores adquiram, provocando assim a repetição sistemática de um determinado comportamento tático de forma a tornar mais fácil a assimilação desse comportamento.


Teoria importante, mas muitas vezes não conseguimos fazê-la emergir na prática e o erro e a procura da solução desse erro aumentará as probabilidades de encontrar uma “fórmula mágica”. Os próximos parágrafos centram-se exatamente nos erros metodológicos de quem planeia em função da PT, erros que advêm de reflexão sobre o meu trabalho e da observação do processo de treino de outros colegas.

O primeiro problema que observo centra-se no Princípio da Hierarquização de Princípios. Elaboramos um modelo de jogo e de treino com princípios coletivos e individuais que queremos desenvolver ao longo da época e depois estamos demasiadamente preocupados com os erros do jogo anterior e com a análise do próximo adversário, operacionalizando o microciclo muito mais em função disso do que do planeamento construído. Grande percentagem do treino deve estar no desenvolvimento dos princípios que estão no planeamento, sendo aquilo que observamos do jogo anterior e do próximo jogo apenas um complemento.

O segundo relaciona o princípio anterior e o Princípio da Progressão Complexa com a forma como elaboramos o processo de treino. A pergunta que faço é: se defendemos a PT e os princípios que a sustentam como podemos fazer sempre os mesmos exercícios (microciclos), os mesmos feedbacks ao longo de uma época desportiva durante semanas seguidas? Não faz sentido. Os exercícios podem ser parecidos, mas temos que criar condicionantes de forma a operacionalizarmos o que está no planeamento, enfatizando o feedback sobre o que realmente querem desenvolver. Percebe-se que será mais fácil controlar cargas de treino com os mesmos exercícios, mas não queremos atletas/equipas totalmente adaptadas ao exercício, queremos atletas/equipas totalmente adaptadas ao “jogar” que pretendemos. 

Outro erro que observo muito é o que eu chamo de “tática analítica”, os treinadores estão a dedicar muito tempo de treino aos comportamentos táticos pré-definidos (vulgares rotinas), repetindo sistematicamente de forma a que esse comportamento aconteça em jogo. Esquecem-se que são exercícios que não tem em conta a especificidade do jogo porque muitas vezes fazem-no sem oposição (nem ativa nem passiva) ou sem os atletas perceberem porque estão a fazer aquilo. Isto é, os treinadores percebem teoricamente o Princípio das Propensões mas não operacionalizam da forma correta para que uma determinada ideia de jogo aconteça em jogo, não criando contextos em treino parecidos com aquilo que acontece em jogo.

Acabo com outro problema que acontece muito na operacionalização do treino que são os exercícios copiados. Pode ser o exercício mais completo do mundo, mas pode não obedecer ao princípio da Especificidade, isto é, pode não ir ao encontro da tua ideia de jogo quando atacas ou quando defendes. Temos que adaptar esse fantástico exercício, criando condicionantes que estimulem o nosso “jogar”.

Concluindo, a Periodização Táctica veio revolucionar de forma positiva o planeamento e periodização do treino no Futebol, no entanto é uma metodologia extremamente complexa onde os erros na sua operacionalização acontecem com bastante frequência.



Cláudio Costa



2 comentários:

  1. Parabéns pela excelente reflexão Cláudio.
    Subscrevo e concordo com tudo o que escreveste!
    Muitas vezes falta a definição de prioridades naquilo que se quer operacionalizar.
    Grande abraço e continuação de bom trabalho.
    Luís Lima

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  2. Obrigado Luís, vamos seguindo o nosso caminho!
    Definir ideias de jogo para atacar, defender e transitar, treinar princípios que sustentem essas ideias é fundamental, e a perceção dos nossos erros de planeamento é vital para nos aproximarmos da "fórmula mágica".
    Grande abraço e muito sucesso!

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