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Futebol (de)formação

Nos dias de hoje, é possível constatar que muitos dos treinadores, dirigentes e adeptos têm como definição de jogo ideal, o famoso tiki-taka do Barcelona: o jogar rápido, a um dois toques, privilegiando a posse, o domínio e o controlo do jogo com bola. É notório, no futebol de formação em Portugal (realidade que me é próxima e da qual falo com conhecimento de causa), a tentativa de implementar este “jogar” desde muito cedo, copiando a realidade das equipas jovens do Barcelona. Certo ou errado?, depende do contexto e da metodologia adotada. O problema é que se verifica, cada vez mais, em escalões muito precoces de forma descontextualizada e logicamente isso trás consigo limitações do ponto de vista evolutivo do jovem jogador. 

É então que, a meu ver começa o grande problema. Quando ouço constantemente treinadores no futebol de formação com feedbacks como “joga rápido”, “não fintes”, “de primeira”, “dá e vai”, isto suscita em mim algumas preocupações. No meu ponto de vista, esta postura adotada, apesar de poder ter alguns benefícios a curto prazo na forma global de jogar da equipa, conduz ao condicionamento da tomada de decisão do jovem jogador e do relacionamento com a bola, à inibição da criatividade e ao medo em assumir o risco, e isto, terá inevitavelmente repercussões negativas a longo prazo.
Não digo que é impossível termos no futebol de 7 equipas a jogar desta forma, no entanto, isto não deverá ser a prioridade, e sim uma consequência da evolução técnica e tática da equipa. O treinador não deve de forma nenhuma condicionar o crescimento individual de cada jogador, em detrimento do sucesso coletivo. Pelo contrário, deve estimular à aquisição de competências, no treino e no jogo, para que o objetivo de “jogar bem” seja alcançado naturalmente. "Fazer crescer jogadores é a melhor forma de fazer crescer uma equipa".

É crucial que as ações técnicas sejam bem exploradas, para que mais tarde os aspetos táticos possam ser mais facilmente assimilados. Atrevo-me mesmo a dizer que, na fase inicial da formação, a técnica se sobrepõe à tática. O desenvolvimento da técnica é fundamental, devendo ser sempre trabalhado em contexto de jogo preservando a sua essência. Algumas das estratégias que podemos adotar passam pela orientação do nosso feedback e pela valorização da ação quando aplicada com sucesso. Desta forma ao valorizar o aspecto técnico executado, estou a promover a sua realização em contexto de jogo, onde está presente a tomada de decisão e os constrangimentos impostos pelo próprio, porque é em situação de jogo que o aspeto técnico vai surgir. Mais importante do que a execução técnica em si, é saber quando, como e onde aplicá-la, e isto, só um exercício global nos poderá trazer. O desenvolvimento de um reportório coordenativo, técnico e tomada de decisão com qualidade só é conseguido com a definição de prioridades ao longo das fases sensíveis do desenvolvimento, sendo estas acompanhadas de repetição e estímulo com dificuldade progressiva.

Se perspectivarmos o futebol de formação como uma pirâmide dividida pelos vários escalões, na base encontramos o escalão de petizes e no topo o escalão de juniores, grande é a diferença da base ao topo, longo é o caminho que passa por diferentes etapas, por diferentes estados de maturação física e cognitiva. Assim sendo, podemos afirmar que para cada escalão terão de ser definidas prioridades de acordo com o estado de desenvolvimento do jovem jogador.

Em suma:
  • O treinador não deve de forma nenhuma condicionar o crescimento individual de cada jogador, em detrimento do sucesso coletivo. 
  • É crucial que as ações técnicas sejam bem exploradas, para que mais tarde os aspetos táticos possam ser mais facilmente assimilados. 
  • O desenvolvimento de um reportório coordenativo, técnico e tomada de decisão com qualidade só é conseguido com a definição de prioridades ao longo das fases sensíveis do desenvolvimento. 
  • Para cada escalão terão de ser definidas prioridades de acordo com o estado de desenvolvimento do jovem jogador.

              Tiago Coelho


1 comentário:

  1. Concordo. No entanto, o principal problema encontra se na mentalidade dos dirigentes e coordenadores associados à formação que pretendem resultados imediatos. Quando tu ganhas constantemente, alguma ccoisa está mal.
    Parabéns pelo blog. Abraço

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