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Construção de exercícios no futebol em função da sua lógica interna



A qualidade da prática é sem dúvida o maior fator influenciador da aprendizagem. Neste sentido, a qualidade da prática no futebol depende fundamentalmente da qualidade dos nossos exercícios de treino, onde conhecer a lógica interna do jogo constitui um requisito fundamental para construir um bom exercício.


O jogo de futebol carateriza-se por um contexto situacional de cooperação/oposição constante, com um constrangimento espaço-temporal variável que depende muito das relações de superioridade, inferioridade ou igualdade no centro do jogo, e que tem como objetivo principal da equipa que ataca progredir no terreno de jogo para obter golo enquanto a equipa que defende tem o objetivo de evitar a progressão e consequentemente o golo na sua baliza. É uma modalidade com predominância da dimensão tática, com exigências técnicas e físicas especificas mas também muito variáveis, o que lhe confere uma grande complexidade na sua operacionalização. 

Tendo em conta esta caraterização existem 5 pontos que eu considero fundamentais para construir os exercícios tendo em conta a caraterização do jogo.

1º - Exercitar princípios jogo – a dimensão tática assume papel fundamental na construção do exercício. Todas as outras dimensões, técnica, física e psicológica são desenvolvidas em função dos princípios de jogo que queremos exercitar/desenvolver.

2º - Direção do exercício – os jogadores tem de saber que alvo estão a defender (impedir a progressão) e que alvo estão a atacar (conseguir a progressão), e esse alvo não tem que ser obrigatoriamente uma baliza, podendo ser um cone, uma linha ou um jogador. Quem já não fez manutenção da posse de bola utilizando como pontuação a realização de 10 passes? A equipa que defende não sabe que espaço defende, nem a equipa que ataca sabe para onde vai progredir, logo vamos nos posicionar sem qualquer referência ofensiva ou defensiva.

3º - Interação de momentos de jogo – o exercício é tanto mais rico e complexo quanto mais momentos de jogo envolver. Se o jogo tem um contexto de cooperação/oposição constante, é fundamental os jogadores serem estimulados com mais exercícios de interação dos quatro momentos de jogo (Gr+4x4+Gr) do que sem interação de momentos de jogo (1x0+Gr).

4º - Exercitar maioritariamente num contexto de cooperação/oposição – não faz sentido ocuparmos grande percentagem do nosso treino com exercícios analíticos, com exercícios sem oposição mas com intenções táticas quando o futebol carateriza-se pelo confronto entre duas equipas que lutam por um único objeto, a bola. 

5º - Variável competição sempre presente – se o jogo tem vitória, empate ou derrota, o exercício também deve ter, no entanto não tem que ser obrigatoriamente a contabilização dos golos, tem que ser a contabilização das ações que suportam o(s) objetivo(s) do exercício. Isto é, imaginemos que tenho como objetivo de treino a melhoria da transição defensiva, nomeadamente a recuperação rápida da bola, então vou criar um exercício onde para além da competição em golos, compito por exemplo com o nº de vezes que após a perda da bola as equipas recuperaram em 7 segundos. 

Concluindo, devemos construir exercícios onde a realidade do jogo (lógica interna) esteja sempre presente, de forma a proporcionar aos jogadores um processo treino contextualizado com a competição, onde as dimensões física, técnica e psicológica evoluem em função de um conjunto de ideias/princípios (dimensão tática) que sustentam o “jogar” de uma determinada equipa.

Concordam com estes pontos-chave para a construção de exercícios?

Acrescentavam? 

Observando o que é feito em Portugal ou particularmente no vosso clube, existem estas preocupações?


Pontos-Chave: 

A construção do exercício depende, entre outros fatores, do conhecimento da lógica interna do jogo de futebol.

Exercitar princípios jogo, direcionar em função de um alvo, aumentar a complexidade do exercício através do aumento da interação de momentos de jogo, exercitar maioritariamente em contextos de cooperação/oposição e colocar a variável resultado são as bases fundamentais na construção de exercícios 


Cláudio Costa


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