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Ideia do clube vs Ideia do treinador

Olhando aos últimos casos de sucesso continuo no futebol, nomeadamente o Barcelona e a seleção espanhola, percebe-se uma ideia de jogo comum a todas as suas equipas. Se observarmos um jogo das camadas mais jovens destas equipas e de seguida um da equipa principal, existem determinados comportamentos (princípios) no seu jogo muito semelhantes entre si, e que não dependem das características dos jogadores nem do seu treinador.

Perante isto, tentei refletir sobre o que acontece em Portugal relativamente à construção de um modelo de jogo nos clubes com abrangência à formação e equipa profissional, tentando com isto responder ao título do texto.

O primeiro erro na construção de um modelo de jogo em Portugal situa-se na importância dada à ideia de jogo do treinador em detrimento da ideia de jogo do clube. Quantas vezes em apresentações de um novo treinador, ouvimo-lo dizer “vamos implementar um novo estilo de jogo"; "vamos treinar uma nova ideia de jogo"; "queremos jogar rapidamente como eu idealizo".

Acho que o caminho certo passa por idealizar um determinado “jogar” para o clube, com princípios gerais comuns a todas as equipas do clube, onde os treinadores sejam operacionalizadores desse modelo de jogo, podendo também contribuir para a melhoria deste sem no entanto o descaracterizar.

Guardiola no Barcelona é um bom exemplo, já que conseguiu adicionar novos princípios de jogo (ex: transição defensiva mais agressiva) sem no entanto modificar radicalmente aquilo que está modelado pelo clube desde os tempos de Johan Cruijff.

Outro problema grave no nosso país que dificulta a elaboração de uma ideia de jogo num clube é a falta de ligação entre futebol profissional e futebol formação, conduzindo ao aparecimento de um número muito reduzido de atletas jovens na equipa profissional.

Se não existe um modelo de jogo para o clube, se não existe partilha da equipa profissional relativo ao que idealizam para o seu “jogar”, como orientamos, planeamos as etapas de formação dos jovens futebolistas em função do “jogar” do clube ou da equipa profissional, para que eles estejam preparados para jogar a nível profissional?

Difícil, mas penso que temos a solução na palavra variabilidade, isto é, após a aprendizagem inicial nos escalões de base (FUT 7), se dermos muitos estímulos diferentes no que respeita a diferentes formas de jogar na fase de especialização e pré-profissionalização (Juvenis, Juniores, Equipas B), os atletas apresentarão maiores recursos para integrarem uma equipa profissional independentemente da ideia de jogo de um determinado treinador da equipa sénior.


Figura 1 - Ideia de jogo treinador - Valorização Vs Descaracterização 


Concluindo, parece-me fundamental, os clubes, através dos seus diretores técnicos, criarem a sua identidade de jogo, tendo em conta a sua cultura, a realidade competitiva onde se encontram, a sua potencialidade, e deste modo fazer uma escolha acertada dos treinadores que podem potencializar e operacionalizar o modelo de jogo do clube nas etapas de formação e na equipa profissional.

A ideia de jogo do treinador é importante para acrescentar valor à ideia de jogo do clube, mas não pode descaraterizar completamente o modelo do clube, e essa ideia tem de ser partilhada para todos os treinadores pertencentes, de forma a ser desenvolvida em todos os escalões.

Quando não existe modelo orientador, coordenadores e treinadores de formação, têm que encontrar soluções, e na minha opinião a variabilidade no que respeita a diferentes estilos de jogo é positivo porque dá ao atleta uma “bagagem” muito maior para enfrentar diferentes ideias de jogo que um determinado clube ou um determinado treinador possam ter na etapa profissional.

Em suma:

  • Ideia de jogo do clube mais importante que a ideia de jogo do treinador; 
  • Ideia de jogo do treinador serve para valorizar a ideia de jogo do clube e não para a mudar de forma radical; 
  • A ideia de jogo do clube são princípios gerais comuns à equipa profissional e às equipas de formação; 
  • Na maioria dos clubes em Portugal, a ideia de jogo do treinador é mais importante que a ideia de jogo do clube e existe pouca ligação entre formação e equipa profissional; 
  • A variabilidade do “jogar” pode ser positivo na formação, no sentido de acelerar a adaptação a diferentes estilos de jogo no futebol profissional, isto quando não existe ligação formação-equipa profissional e não existe ideia de jogo do clube.

      Cláudio Costa


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