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Desenvolvimento da velocidade no futebol


Com o surgimento da periodização tática, e com os sucessivos bons resultados de treinadores com esta metodologia, muito se tem falado sobre a preparação física dos jogadores de futebol. 

Para quem não está familiarizado muito sumariamente, a periodização tática, utilizada por José Mourinho entre outros, é uma metodologia que prepara os jogadores fisicamente para a partida seguinte utilizando apenas formas jogadas, rejeitando o trabalho específico utilizado tradicionalmente para desenvolver as capacidades físicas. 

Por oposição, existe a preparação convencional onde os treinadores planeiam exercícios específicos para velocidade, força, resistência, etc., muitas vezes completamente descontextualizados do jogo. 

Nesta publicação pretendo falar um pouco desta problemática, mais especificamente sobre o desenvolvimento da velocidade individual. 

Empiricamente sabe-se que a velocidade se deve trabalhar com velocidade pura. Que a bola é um empecilho à corrida e que portanto não deve ser utilizada quando se quer trabalhar a velocidade. Na preparação convencional parte-se deste pressuposto, trabalhando a velocidade com exercícios específicos (sprints, sprints com mudanças de direção, skippings). No entanto, o futebol não é atletismo logo muitas das regras utilizadas para o atletismo não poderão ser utilizadas para o futebol.

Cada vez mais vão surgindo artigos que tentam comparar estes dois tipos de preparação. Sem uma procura exaustiva selecionei dois estudos recentes para ilustrar o que digo.

Num estudo de intervenção feito por investigadores polacos em jogadores de futebol jovens, compararam dois tipos de treino de velocidade de deslocamento individual no futebol. Um dos grupos treinava a velocidade com bola e o outro sem bola. Ambos os grupos tiveram melhorias significativas, mas não existiram diferenças entre grupos (Jastrzebski, Z et al.; 2013).

Já no Journal of Sport Science conseguimos encontrar um estudo de 2014 que compara o desenvolvimento da velocidade de reação (reactive agility) e a velocidade de mudança de direção, utilizando jogos reduzidos (2x2 e 4x4) e utilizando treino especifico de mudanças de direção em atletas de elite. Apenas na velocidade de reação houve melhorias e foram no grupo que fazia o treino de jogos reduzidos, sendo que essa melhoria não se deve ao aumento da velocidade de deslocamento mas sim à melhoria na tomada de decisão (Young, W; 2014).

Claro que será preciso uma revisão de literatura mais aprofundada para dizer com certeza que a velocidade individual se consegue desenvolver, da mesma forma, recorrendo apenas a exercícios com bola, no entanto ficam alguns indícios científicos de que isso é possível.

Não estou, contudo, a defender a extinção do trabalho de velocidade no treino. Estou, sim, a tentar alertar que a relação com bola e interpretação dos princípios de jogo devem ser o foco fundamental de um treinador, e a base da estruturação do treino. Devemos na construção do exercício ter em mente qual/ais a/as característica/as físicas que queremos desenvolver e formulá-lo de acordo com isso.

Como exemplo, podemos utilizar um exercício de 2x1 com recuperação defensiva, em que procuramos trabalhar por exemplo o princípio da progressão. Se for construído com as dimensões corretas, trabalha velocidade de condução no portador da bola e velocidade de deslocamento sem bola no jogador que vem em perseguição e no outro atacante. É um exercício integrado no processo de aquisição do modelo de jogo, mas que nos permite controlar melhor a distribuição das cargas individuais, quando comparado com jogo reduzido, e que tem como objetivo a melhoria da velocidade.

Desta forma estamos a trabalhar a capacidade física que pretendemos, melhoramos a relação com bola dos atletas e aproximamo-nos mais um pouco da forma de jogar que idealizamos, tudo no mesmo exercício, economizando tempo e causando menos fadiga do que utilizando um exercício para cada objetivo. 


velocidade neymar
 
Em suma:

  • Existem dois tipos de preparação física no futebol: Preparação convencional e a periodização tática; 
  • Há indícios de que a velocidade de deslocamento dos atletas de futebol pode ser desenvolvida com ou sem bola, com os mesmos índices de melhoria; 
  • A velocidade de reação desenvolve-se mais com treinos de jogo reduzido, do que com treino específico de mudanças de reação em atletas de elite; 
  • Os exercícios de melhoria de velocidade devem ser integrados no objetivo geral do treino (ex: o principio da progressão), para que possamos melhorar esta capacidade, a relação com bola dos nossos atletas e para nos aproximarmos mais da forma de jogar idealizada, com menos tempo e com menos acumulação de fadiga que em 3 exercícios diferentes.


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